Papa: o progresso da ciência deve crescer junto à responsabilidade com os mais vulneráveis
Por Vatican News

Em audiência com participantes da plenária da Pontifícia Academia das Ciências, Papa retoma reflexões da "Magnifica humanitas" sobre possibilidades e riscos da IA, o impacto incerto das ferramentas, mas com um futuro promissor.
O progresso científico, porém, "deve ser acompanhado por um crescimento da responsabilidade" diante dos desafios do meio ambiente em transformação e com os vulneráveis que mais sofrem as mudanças. A cultura científica deve ser inovadora, mas responsável e inclusiva.
A audiência com o Papa Leão XIV, na manhã desta quinta-feira (24/09), deu início à sessão plenária de dois dias da Pontifícia Academia das Ciências (PAS), que se realiza na Casina Pio IV e pretende elaborar uma declaração com recomendações sobre as implicações éticas do progresso científico, inclusive para enriquecer as reflexões já propostas pelo Pontífice.
Na Sala Clementina, no Vaticano, cerca de 140 pessoas que participam da conferência “O futuro da Ciência em um mundo em transformação” ouviram o discurso de Leão.
Impacto incerto, mas com futuro promissor
O Pontífice, citando a sua encíclica "Magnifica humanitas" começou falando sobre a importância de avaliar a trajetória da ciência diante das "grandes tendências do nosso tempo" como "a digitalização, a Inteligência Artificial (IA) e a robótica" que estão mudando rapidamente o nosso mundo. Leão XIV, como já trouxe no seu documento, encoraja a enfrentar as transformações com "lucidez e responsabilidade":
"Embora seu impacto total permaneça incerto, essas ferramentas nos dão motivos para esperar um futuro mais luminoso para a humanidade. Podem, por exemplo, levar a descobertas científicas fundamentais e a inovações tecnológicas capazes de promover o progresso da medicina, melhorar o diagnóstico e o tratamento de doenças, fortalecer os sistemas alimentares e energéticos, aprofundar nossa compreensão do universo e do mundo natural e abrir novas possibilidades para a criatividade humana e a cooperação. No entanto, justamente porque esses avanços são tão promissores, devemos também reconhecer os riscos que os acompanham. A Inteligência Artificial pode ser utilizada para vigiar, manipular e discriminar. Capacidades informáticas sofisticadas e armas autônomas podem, se desenvolvidas ou implantadas sem salvaguardas adequadas e sem supervisão humana, apresentar novos perigos à segurança e à paz internacional."
Progresso tecnológico com responsabilidade
Além disso, continuou o Pontífice em discurso, como os sistemas de IA exigem enormes quantidades de energia e água, o impacto ambiental não pode ser subestimado. O progresso tecnológico, assim, assume possibilidades e riscos que não devem contradizer o princípio fundamental da dignididade humana e a compreensão da sociedade:
"O progresso científico e tecnológico deve, portanto, ser acompanhado por um crescimento correspondente da responsabilidade. Quanto maior for o nosso poder de transformar o mundo, maior deve ser a nossa capacidade de discernir o que verdadeiramente serve à dignidade humana dada por Deus, de governar com sabedoria e de cuidar daqueles que podem arcar com as maiores consequências da nossas escolhas."
O apelo do Papa diante dos desafios ambientais
Essa mesma exigência de responsabilidade, afirmou o Papa, "é especialmente urgente diante das mudanças climáticas". Os registros cada vez mais frequentes e intensos de "ondas de calor, secas, inundações, tempestades, incêndios florestais e outros desastres naturais", observou Leão XIV citando a Laudato si' do Papa Francisco, recaem "com maior severidade sobre os pobres e as comunidades com menos recursos".
O apelo do Pontífice, então, para que a ciência fortaleça a resiliência climática, oferecendo respostas que protejam tanto o meio ambiente como os mais vulneráveis:
"A questão climática não é meramente um desafio ambiental, mas é, fundamentalmente, uma questão de justiça, de dignidade humana e de solidariedade entre povos e gerações. Não podemos responder a esses desafios somente depois que o desastre já tiver ocorrido. Precisamos passar da resposta da emergência para a prevenção, da vulnerabilidade para a preparação e das medidas de curto prazo para uma visão sábia e de longo prazo para a humanidade. Isso exige uma abordagem responsável e criteriosa da ciência que fortaleça a resiliência: uma abordagem comprometida com a descoberta, mas que também considere, desde o início, as consequências que as escolhas científicas e tecnológicas podem ter para a humanidade e para a integridade da criação que Deus nos confiou."
Com os desafios de um clima em transformação, continuou o Pontífice ao recordar o Papa Francisco, "a cooperação interdisciplinar é indispensável" e exige a colaboração de cientistas, engenheiros, economistas, médicos e cientistas sociais, juntamente com as comunidades locais e os formuladores de políticas.
Nesse sentido, Leão agradeceu pelas iniciativas desenvolvidas no âmbito da resiliência climática, através de conferências nos últimos dois anos, de onde podem ser traduzidas em ações práticas.
"Espero sinceramente que reflexões de vocês durante estes dias possam oferecer orientações valiosas para o futuro da ciência. A presença dos jovens entre nós nos faz lembrar do futuro! E isso é muito, muito importante. Rezo para que vocês possam promover uma cultura científica que seja ambiciosa, mas humilde; rigorosa, mas aberta ao diálogo; inovadora, mas responsável; cooperativa em nível global, mas inclusiva para com aqueles que estão em maior risco e mais necessitados. Dessa forma, a colaboração científica, como bem público a serviço da paz, poderá permanecer focada em salvaguardar a dignidade humana concedida por Deus, promovendo o bem comum e cuidando da criação."






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