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Mensagem do Papa Leão XIV nos 200 anos de relações com o Brasil

  • Foto do escritor: Radio Catedral
    Radio Catedral
  • há 2 horas
  • 4 min de leitura

Por Matheus Macedo - Vatican News



Por ocasião da celebração dos 200 anos das relações diplomáticas entre o Brasil e a Santa Sé, o Papa Leão XIV enviou uma mensagem aos participantes da sessão extraordinária realizada no plenário da Câmara dos Deputados, em Brasília, nesta terça-feira (03/03).


A cerimônia integra oficialmente o calendário celebrativo do bicentenário no país e contou com a participação dos bispos do Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), além de parlamentares, representantes do corpo diplomático e outras autoridades civis e eclesiásticas.


A mensagem do Pontífice foi lida pelo núncio apostólico no Brasil, o arcebispo Giambattista Diquattro. No texto, Leão XIV ressalta a “longevidade de uma amizade autêntica, que soube adaptar-se às grandes transformações sociais e políticas ocorridas tanto no país quanto no mundo, evidenciando a robustez deste vínculo”.


O Papa destaca o empenho diligente — e muitas vezes silencioso — de diplomatas e eclesiásticos que, ao longo de dois séculos, colaboraram para o aprofundamento dessa relação. Recorda ainda que a diplomacia brasileira se caracterizou, desde os primórdios, pelo respeito à fé católica transmitida de geração em geração no seio do povo.


“No período colonial, a Igreja exerceu nessas terras um papel decisivo no âmbito educativo, cultural e moral, contribuindo, a partir dos preceitos do Evangelho, para a formação de identidades locais, para a difusão de valores éticos comuns e para o debate público sobre temas de mútuo interesse, como a justiça e o bem comum”. 


O Pontífice observa que a separação entre Estado e Igreja não significou ruptura ou enfraquecimento das relações, mas o aperfeiçoamento de uma parceria que se mostrou firme e enriquecedora para ambas as partes.


Ao celebrar o bicentenário, Leão XIV afirma que, mesmo nas mudanças de época e nos períodos mais desafiadores, Brasil e Santa Sé permaneceram ao lado dos que defendem os princípios fundamentais da dignidade humana. Segundo ele, a atuação conjunta em diversas frentes reafirma a relevância do diálogo e da diplomacia multilateral na construção de um mundo mais justo.


“Esta trajetória conjunta, que não se distingue por ser apenas uma aliança institucional, significa um compromisso recíproco com a promoção da paz e da concórdia, o socorro aos mais pobres e desvalidos e o cuidado com a nossa casa comum”, pontua o Papa, destacando uma responsabilidade que ultrapassa fronteiras e circunstâncias históricas.


O Pontífice manifestou ainda o desejo de que a comemoração inspire um futuro de colaboração ainda mais fecunda. Recordou, como expressão concreta da solidez dessa relação, a assinatura do Acordo entre a Santa Sé e o Brasil, em 2008, ressaltando que os laços diplomáticos contribuem para garantir a liberdade religiosa — pilar essencial de uma democracia plenamente consolidada.


Leão XIV concluiu a mensagem invocando a intercessão de Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, e concedendo sua bênção apostólica a todo o povo brasileiro.


Laicidade positiva e maturidade institucional 


Na abertura da sessão, foi exibido um vídeo que recordou os 200 anos de colaboração mútua em favor do bem comum.


O cardeal Paulo Cezar Costa, arcebispo de Brasília, destacou que a Igreja acompanhou momentos decisivos da história brasileira, do período imperial à consolidação da República. Ao mencionar a separação entre Igreja e Estado, afirmou que o processo representou um amadurecimento institucional.


Dom Paulo Cezar recordou as visitas de João Paulo II e Francisco e destacou o Acordo Brasil-Santa Sé, assinado em 2008 e promulgado em 2010, como expressão de maturidade nas relações bilaterais e garantia da liberdade religiosa dentro do Estado laico.


“Consolidou-se no Brasil um modelo de laicidade positiva, no qual Estado e Igreja são distintos e independentes, mas colaboram reciprocamente em favor da sociedade”, declarou.


Diplomacia a serviço da paz 


O cardeal Jaime Spengler, presidente da CNBB, afirmou que o bicentenário é ocasião para recordar “um caminho espiritual e humano” no qual a diplomacia esteve a serviço da paz e da dignidade da pessoa humana.


Segundo ele, apesar das profundas transformações históricas ao longo desses 200 anos, as relações entre Brasil e Santa Sé mantiveram como fundamento a centralidade da pessoa humana, criada à imagem de Deus e chamada à liberdade e à responsabilidade.

Dom Jaime também citou discurso recente de Leão XIV ao corpo diplomático, ressaltando que a diplomacia da Santa Sé não busca privilégios políticos, mas nasce de uma visão ética e espiritual da história, na qual o diálogo prevalece sobre o conflito.


Missa em ação de graças 


No mesmo dia, foi celebrada na Catedral Metropolitana de Brasília uma missa em ação de graças, presidida pelo cardeal Lorenzo Baldisseri, enviado especial do Papa para a ocasião. O purpurado foi núncio apostólico no Brasil em um dos momentos marcantes dessa história diplomática: a assinatura do Acordo entre os dois Estados, em 2010.


Em sua homilia, manifestou alegria por estar no país neste momento significativo. “Tenho a honra de trazer a saudação, a bênção apostólica e a particular solicitude de Sua Santidade, Pastor Universal da Igreja, para esta Terra de Santa Cruz, tão rica em humanidade, tradição e vida cristã”, afirmou.


Recordando os anos de serviço no Brasil, destacou a diplomacia como instrumento de paz, negociação e mediação. Ao final da celebração, dom Jaime Spengler agradeceu a presença de Baldisseri neste “marco histórico” e recordou sua contribuição para a Igreja no Brasil.


O presidente da CNBB também dirigiu agradecimento ao ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, mencionando o contexto internacional marcado por tensões que exigem da diplomacia sabedoria e discernimento.

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