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Comissão Tecnológica: O cuidado com a Criação é uma questão teológica

Foto do escritor: Silvia Carvalho
Silvia Carvalho
5 de set.
5 min de leitura

Por Vatican News


Foto: Vatican Media.
Foto: Vatican Media.

A Comissão Teológica Internacional publica o documento “Cuidar da nossa Casa comum”, que convida a uma “resposta responsável e fraterna ao Deus trinitário”. A questão ecológica é uma questão teológica: a maneira como cuidamos da Criação revela e molda a relação com Deus.


A deterioração do meio ambiente é alarmante; é necessária uma ação urgente em prol da sustentabilidade do planeta. Tudo está interligado: ouvir o clamor da Terra e dos pobres


Como responder, de uma perspectiva cristã, à “crise ecológica e social”, “míope e suicida”, na qual a humanidade se encontra? Essa é a questão que está na base do novo documento da Comissão Teológica Internacional (CTI), intitulado “Cuidar de nossa Casa comum – Resposta responsável e fraterna ao Deus trinitário”.


Publicado esta quarta-feira, 2 de setembro, com a autorização de Leão XIV, o texto é fruto de reflexões realizadas entre 2022 e 2025. O ponto de partida é a “tripla mutação” que levou, ao longo dos anos, à perda da percepção espontânea da natureza como criação de Deus; ao surgimento de uma visão cada vez mais antropocêntrica e predatória na relação entre o homem e a Criação; e à propagação de uma crise planetária.


Ninguém é uma mônada, tudo está interligado


O documento está dividido em três capítulos: no primeiro – “A Casa Comum, obra do Deus trinitário” – destaca-se “a marca não apenas divina, mas também trinitária” presente na Criação.


Essa marca apresenta os traços da sacramentalidade – ou seja, é sinal de “uma realidade sagrada e oculta” que encontra sua “máxima elevação” na Eucaristia – e da inter-relação, pois o ser humano responde à sua vocação desenvolvendo corretamente as relações com Deus, com os outros e com a Criação.


“Nada nem ninguém é uma mônada – lê-se no documento – Tudo está inter-relacionado” para formar “uma única comunidade de vida”.




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A origem do universo segundo a ciência e a fé


O primeiro capítulo desenvolve, ademais, o diálogo com algumas visões científicas e filosóficas do cosmos, ilustrando como a fé no Deus criador oferece algo que a ciência não consegue proporcionar, embora indague “legitimamente” as primeiras fases do universo.


De fato, se a cosmologia reflete sobre como o mundo surgiu, a fé explica o porquê: Deus dá ao universo uma origem metafísica, não simplesmente física, e chama livremente à existência aquilo que, por si só, não existiria.



À imagem e semelhança de Deus


O segundo capítulo – “O ser humano na Casa comum” – começa com uma reflexão sobre o homem criado à “imagem e semelhança de Deus”, o que serve de ponto de partida para reafirmar que as diferenças – de etnia, gênero, cultura, status social ou econômico – não implicam, de forma alguma, em uma hierarquia. Utilizá-las para discriminar ou subjugar o outro afasta-se do desígnio de Deus.



Apelo à conversão ecológica


A CTI resume, portanto, alguns dados “muito alarmantes sobre a deterioração ecológica”: o desaparecimento da diversidade biológica; a poluição atmosférica; a piora da qualidade da água; a guerra que acelera “brutalmente” a destruição do meio ambiente; as repercussões “extremamente graves” de tudo isso sobre os mais pobres, explorados em seus recursos naturais e forçados à migração.


Daí o forte apelo lançado pela Comissão: diante de uma crise ecológica “sem precedentes”, são necessárias não apenas soluções científicas e técnicas, mas também e sobretudo “uma mudança nos valores culturais”, uma verdadeira conversão ecológica no modo de vida.



O pecado contra a Criação e contra o Criador


O documento propõe, ainda, falar de “pecado contra a Criação e contra o Criador”, uma formulação teológica que une o dano ambiental à rejeição do desígnio divino da criação, evitando tanto a linguagem puramente científica (como “ecocídio”) quanto a dispersão da responsabilidade.


O momento histórico atual, de fato, “exige de todos, a começar por aqueles que são responsáveis pela vida pública, uma ação urgente em favor da sustentabilidade do planeta e da habitabilidade da Casa Comum. Não se trata apenas de uma exigência ética, mas também teológica”.




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A Eucaristia, “escola ecológica”


O olhar da fé leva a rejeitar também “dois extremos inaceitáveis”: o antropocentrismo predatório, que considera a humanidade como “dona absoluta de toda a criação”, e o biocentrismo ou ecocentrismo, que absolutiza a natureza.


A proposta cristã, por outro lado, é a de um “antropocentrismo situado” (expressão do Papa Francisco retomada por Leão XIV) que coloca o ser humano como “administrador e servidor da Criação”. Essa dupla vocação encontra seu ápice na Eucaristia, “escola ecológica” graças à qual se promove “uma atitude positiva e proativa em relação à natureza”.


A lógica jubilar e a espiritualidade ecológica


O terceiro capítulo – “O cuidado da Casa comum” – oferece algumas diretrizes operacionais, articuladas em torno de cinco relações fundamentais da pessoa.


Da relação com Deus deriva a “lógica jubilar”: baseada na fraternidade, na solidariedade, na gratuidade e na humildade, ela conduz à justiça social.


Da relação consigo mesmo brota “uma espiritualidade ecológica” que convida a um estilo de vida saudável, atento ao consumo (“cada ato de compra é um ato moral”) e responsável.




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O clamor da Terra e dos pobres


Da relação com a Criação decorrem princípios como a reverência; a sustentabilidade; a escuta do “clamor comovente” da Terra, “tragicamente ligado ao clamor dos pobres”; o respeito pela vida (que permite ao homem utilizar os recursos naturais, mas com moderação e de acordo com as necessidades); a ascese e o jejum (resposta moral à superexploração dos recursos, especialmente nos países ricos); e um compromisso diferenciado de acordo com as responsabilidades das diversas nações.


A sacralidade da vida humana e a rejeição da guerra


Além disso: da relação com o próximo emergem a sacralidade da vida humana (direito incondicional e inalienável que os Estados devem proteger e promover, inclusive por meio da rejeição da guerra); a destinação universal dos bens (a Casa comum deve ser cuidada também para as gerações futuras); a fraternidade (antídoto contra um individualismo “falso, egoísta, atroz e ávido”); a misericórdia; e a opção preferencial pelos pobres.



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A colaboração inter-religiosa


Como quinta e última relação, a CTI reflete sobre a oferecida contribuição das diversas religiões para o cuidado da Criação. Destacam-se, em particular, os elementos mais comuns: a interconexão entre tudo o que existe; o dever de respeitar todos os seres vivos; a responsabilidade do homem.


Portanto, “do ponto de vista da fé cristã, as portas estão abertas para uma colaboração inter-religiosa na tarefa comum de cuidar respeitosamente de toda a Criação”.


Responsabilidade moral


Na conclusão do documento, a Comissão reafirma que a questão ecológica é uma questão teológica: a maneira como cuidamos da Criação molda a relação com o próprio Deus.


O texto convida a uma “virada ecológica” seguindo o exemplo de São Francisco de Assis e encerra-se com uma nota de esperança: a crise ambiental, por mais grave que seja, não abala a confiança em Deus, que faz “novas todas as coisas”.


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